Artista e articulador cultural, Wesley Rocha começa novo projeto no Ceará; veja entrevista

Inquieto e defensor de uma arte que por muito tempo foi marginalizada, Wesley Rocha conversou com a Frisson sobre seus anseios, propostas e histórico artístico e cultural

Foto: Lino Vieira

Articulador cultural, artista urbano, pesquisador e defensor da resistência cultural. O muralista cearense Wesley Rocha já reúne, em sua trajetória de mais de 20 anos, uma série de produções artísticas espalhadas por cidades do Ceará, como Fortaleza, Paracuru e São Gonçalo do Amarante, e São Paulo. Atualmente, pronto para começar um novo projeto no Ceará para o filme “Iracema”, de Daniell Abrew, que irá consistir em uma série de murais de indígenas espalhados por cidades cearenses, Wesley garante que seus planos não param por ai.

Com anseios e viagem marcada para levar a cultura indígena e nordestina para a Europa, o artista pretende levar um pouco da arte que deixou por aqui. Tendo assinado diversos murais em entradas de metrôs de comunidades brasileiras, Wesley garante que a proposta é seguir retratando personalidades de relevância política e social. Entre os exemplos das pessoas que já foram retratadas pelas mãos de Wesley, estão o grande cantor Belchior e o pescador histórico do Mucuripe, mestre Jerônimo.

Inquieto e defensor de uma arte que por muito tempo foi marginalizada, Wesley Rocha conversou com a Frisson sobre seus anseios, propostas e histórico artístico e cultural. Confira a entrevista na íntegra:

Frisson: Você é grafiteiro, articulador cultural… Pode falar um pouco das suas ocupações?

Wesley Rocha: Sou artista urbano. Desenvolvo pinturas em telas e ambientes internos, na área de decoração de interiores, articulo e produzo ações, como festivais de arte urbana, oficinas de arte urbana, palestras e exposições. Também sou documentarista, com várias produções áudio visuais que retratam o cotidiano e vivências minhas e de outras [pessoas] em nossos processos artísticos. Sou ativista da causa indígena, levando a cultura e a estética para os murais que produzo nas cidades.

Frisson: Sua trajetória artística iniciou com o desenvolvimento de faixas para torcidas, certo? Pode relembrar como você se encontrou na arte e como percebeu que a arte e a cultura seriam parte da sua carreira profissional?

Wesley Rocha: Já em Fortaleza, em meados dos anos 1998, iniciei minha trajetória artística através da aerografia, que é uma técnica de pintura, assim fazendo meus primeiros trabalhos artísticos. Em 2005, fui morar em São Paulo e comecei a me inserir no contexto urbano da cidade quando me envolvi com a cultura hip hop de verdade e quando conheci o grafite de uma forma mais ampla. A partir daí, fui criando um conceito artístico e amadurecendo como artista… O grafite me trouxe várias possibilidades. Hoje me vejo como um muralista.

Frisson: Você é um cearense radicado em São Paulo. Quando você se mudou para a cidade e o que te levou até lá?

Wesley Rocha: Me mudei em 2005. P que me levou foi a vontade de aprender e conhecer mais sobre arte. No início, até trabalhei como metalúrgico para tentar comprar os materiais para iniciar os grafites. Sou muito grato à cidade de São Paulo, que me ensinou muito sobre vivências e sobre criar uma visão melhor sobre a arte de rua, principalmente na periferia, onde encontro inspiração e consigo me encontrar.

Frisson: Você também atua como articulador cultural da Cufa no Nordeste. Como é sua atuação na Cufa e como tem sido seus trabalhos mais recentes?

Wesley Rocha: Hoje sou articulador cultural na Cufa na região Nordeste, a convite do presidente da Cufa Ceará (Piqueno). Com o apoio do artista local Davi Favela, já produzi um festival de grafite na sede da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh): o evento “Mostra Águas do Nordeste”, no qual fiz a curadoria. Esse projeto teve como propósito conscientizar a população do Ceará ao uso inteligente da água, respeitando esse bem que é tão valioso para vida. A mostra teve a presença de 60 artistas, muitos deles locais e de outros estados do nordeste. Queremos levar graffiti e muita cor para bairros da periferia, produzindo novos artistas e influenciando nosso povo.

Frisson: Você já homenageou personalidades como Belchior e mestre Jerônimo. Como decide a personalidade que irá estampar seus murais? E o que elas têm em comum?

Wesley Rocha: Tenho como maior critério a história de vida e o quanto impactou e impacta as velhas e novas gerações. Não precisa ser famoso(a), mas precisa mexer com nosso imaginário. O que todos têm em comum é que são autênticos e próximos das pessoas simples das cidades, para que elas possam se identificar.

Frisson: Onde em Fortaleza é possível encontrar murais seus? E em outros locais além de Fortaleza?

Wesley Rocha: Tenho vários bairros e cidades do Ceará. Em Fortaleza, tenho nos bairros Mucuripe, São João do Tatuapé, Lagamar, Praia de Iracema, Vila velha, Mondubim, Barroso, Porangabussu, Aerolândia, Aldeota… Tenho [murais] em Paracuru, São Gonçalo do Amarante, Canoa Quebrada, Jericoacoara, Sobral… Em São Paulo, tem em vários bairros…

Frisson: Os murais que você vem desenvolvendo são sempre perto de estações de metrô e VLT. Qual o seu objetivo em colorir esses trechos da cidade?

Wesley Rocha: Esse projeto que venho desenvolvendo perto das estações de metrô de Fortaleza é uma parceria minha com a Seinfra e a Metrofor. A ideia é levar arte urbana para a comunidade no entorno das estações, através do resgate da história de cada bairro onde o metrô está inserido. Deixar a história da comunidade viva nos murais.

Frisson: Agora você está fazendo uma série de murais em Guaraciaba do Norte para o filme “Iracema”, do diretor Daniell Abrew. Pode nos dar uma primeira visão sobre o que são esses murais e como eles farão parte do filme?

Wesley Rocha: Sim, os murais “As Iracemas”. Pintarei em cada cidade da região uma Indígena, nativas de cada cidade onde acontecerá o circuito. O propósito é fortalecer a ancestralidade da região e promover o filme “Iracema” , que será uma adaptação do livro de José de Alencar. Fiquei super empolgado com o convite da produtora Fernanda Moraes e do grande cineasta Daniell Abrew, porque já é uma cultura que já venho retratando nas cidades onde passo. Ainda esse ano, estarei iniciando as produções na cidade de Ipu. Esse filme promete ser um grande sucesso. Já em janeiro começam as gravações.

Frisson: Ano que vem você já tem um projeto marcado na Europa, certo? Pode falar um pouco sobre como será esse projeto?

Wesley Rocha: Até que enfim vai rolar essa trip [viagem]. Será em maio de 2022. Vou começar por Portugal, onde pintarei murais em cidades importantes e ricas em cultura, como Lisboa, Moita, Montijo e Barreiro. Depois partirei para Londres, na Inglaterra, e depois para a Suíça. Estou muito feliz com a oportunidade de pintar nessas regiões. Vou levar a estética dos murais de nossa brasilidade e o que o nordestino tem de melhor: a riqueza da nossa cultura.

Frisson: Para você, qual a importância da arte e da cultura?

Wesley Rocha: Sem arte, a vida perde a intensidade e brilho. A cultura nos atrai para o que somos em sua melhor essência. A arte nos dá inspiração para seguirmos nossos sonhos. Entender sua importância é primordial.

Frisson: A arte e a cultura também são instrumentos sociais e políticos. Como esses temas são usados para refletir o seu posicionamento?

Wesley Rocha: São usados nas escolhas de quem será homenageado nos murais. Procuro sempre trazer diversidade e dar voz a quem menos é ouvido. Meus documentários falam sobre esse viés, sobre os indígenas que morrem em suas próprias terras, as periferias que sofrem por falta de assistência… Sou um artista que é de periferia simples e faz uma arte que até pouco tempo era marginalizada. Essa é a reflexão. As obras são por si só uma reflexão sem precisar de legendas .

Frisson: Que outros projetos você tem em mente para 2022?

Wesley Rocha: Estou idealizando um podcast “Rua Cria”, que será direcionado a dar falas a artistas de rua de várias linguagens, empreendedores, atores, músicos etc.. Será aberto para todos, sem exceções. Será uma produção da galera da Tua Casa Criativa. O projeto é inovador para o cenário de Fortaleza.

Frisson: Além da sua profissão, o que a arte significa para você?

Wesley Rocha: Não consigo só enxergar como profissão, vai além… A arte que me proporciona tudo na minha vida. Uma dádiva divina que estou sempre evoluindo e aperfeiçoando.

Fonte: http://frissononline.com.br/entrevistas/156397/artista_e_articulador_cultural_wesley_rocha_comeca_novo_projeto_no_ceara_veja_entrevista

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